Imagine um lugar de reis lendários, de palácios grandiosos e de uma cultura que por milênios iluminou o mundo. Essa era a Pérsia, um nome que ecoa com o som de poesia, ciência e poder. Agora, pense nas imagens e notícias que frequentemente chegam até nós hoje sobre a nação que ocupa essa mesma terra: o Irã. Como um império tão celebrado pôde se transformar em uma república governada por clérigos? A resposta não é simples nem rápida. É uma jornada profunda e por vezes dolorosa, marcada por sonhos de modernidade, clamores por liberdade e a ascensão de uma fé inabalável.
Entender como a Pérsia se tornou o Irã e a ditadura teocrática do aiatolá que vemos hoje é mergulhar em uma história de contrastes impressionantes. É a história de um povo orgulhoso de seu passado, que se viu em uma encruzilhada de caminhos, forçado a escolher entre a promessa de um futuro ocidentalizado e o chamado de suas raízes espirituais mais profundas. Esta não é apenas a história de uma nação, mas um reflexo das tensões que moldam nosso mundo até hoje: o embate entre tradição e modernidade, entre poder secular e autoridade religiosa. Para compreender o Irã atual, precisamos voltar no tempo e caminhar por essa estrada de revolução.
O Brilho Desvanecido do Trono do Pavão

Antes da revolução e da teocracia, havia a Pérsia dos Xás. A dinastia Pahlavi, que governou o Irã durante grande parte do século XX, sonhava em transformar a nação em uma potência moderna e respeitada no cenário mundial. O último Xá, Mohammad Reza Pahlavi, imaginava um Irã que rivalizasse com as nações mais desenvolvidas do Ocidente. E, em muitos aspectos, ele promoveu mudanças notáveis.
A Marcha Forçada para a Modernidade
Nos anos 60 e 70, o Irã vivia uma era de transformações rápidas. Impulsionado pela vasta riqueza do petróleo, o Xá lançou a chamada Revolução Branca. Este era um ambicioso programa de reformas que visava modernizar o país de cima para baixo. A reforma agrária distribuiu terras a milhões de camponeses, grandes projetos de infraestrutura como barragens e estradas foram construídos e a indústria começou a florescer.
As mudanças sociais também foram profundas. As mulheres ganharam o direito de voto e foram incentivadas a estudar e a trabalhar fora de casa. As leis da família foram alteradas, dando-lhes mais direitos no casamento e no divórcio. Nas grandes cidades como Teerã, um estilo de vida ocidentalizado se tornava comum. As pessoas vestiam roupas da moda, frequentavam cinemas que exibiam filmes de Hollywood e ouviam música pop ocidental. Para um observador externo, o Irã parecia estar no caminho certo para se tornar um farol de progresso no Oriente Médio.
As Sombras por Trás da Fachada de Progresso
Contudo, por baixo dessa superfície de modernidade, o descontentamento crescia como uma maré silenciosa. A riqueza do petróleo não era distribuída de forma igual. Enquanto uma elite próxima ao Xá vivia em um luxo exorbitante, com festas grandiosas que celebravam a antiga monarquia persa, muitos iranianos nas áreas rurais e nos bairros pobres das cidades se sentiam deixados para trás. A inflação corroía o poder de compra e a corrupção no governo era vista como um problema generalizado.
A modernização acelerada também criou um choque cultural profundo. Para muitos iranianos devotos e conservadores, a ocidentalização imposta pelo Xá era uma ameaça direta aos seus valores islâmicos e à sua identidade cultural. Eles viam a popularização de minissaias, o consumo de álcool e a proximidade com os Estados Unidos não como progresso, mas como uma forma de decadência moral e de submissão a uma potência estrangeira.
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E havia o medo. O regime do Xá, apesar de sua fachada moderna, era uma autocracia. A liberdade de expressão era severamente limitada. A SAVAK, sua temida polícia secreta, era conhecida por sua brutalidade. Qualquer pessoa que ousasse criticar o monarca ou suas políticas corria o risco de ser presa, torturada ou desaparecer. Intelectuais, estudantes, ativistas de esquerda e clérigos conservadores eram alvos constantes dessa repressão. O Irã era um barril de pólvora, e a faísca estava prestes a ser acesa.
O Clérigo Exilado que Se Tornou a Voz da Revolução do Aiatolá

Longe dos palácios de Teerã, uma figura austera e carismática se tornaria o catalisador de toda essa insatisfação. Seu nome era Ruhollah Khomeini, um aiatolá, um alto clérigo xiita, que havia sido forçado ao exílio pelo Xá nos anos 60 por sua oposição ferrenha às reformas seculares.
De seu exílio, primeiro na Turquia, depois no Iraque e finalmente na França, Khomeini não se calou. Suas mensagens eram gravadas em fitas cassete e contrabandeadas para dentro do Irã, onde eram copiadas e distribuídas de mão em mão, de mesquita em mesquita. Sua voz se tornou a voz de todos os descontentes.
Khomeini falava uma linguagem que o povo entendia. Ele denunciava a corrupção da elite, a entrega das riquezas do país aos interesses estrangeiros, especialmente aos americanos, e a tirania do Xá. Ele condenava o abandono dos valores islâmicos e prometia um retorno à justiça social e à pureza da fé islâmica. Para os pobres, ele oferecia esperança. Para os devotos, ele oferecia um caminho de retidão. Para os nacionalistas, ele oferecia a promessa de um Irã verdadeiramente independente. Ele uniu grupos que, em outras circunstâncias, jamais estariam do mesmo lado: religiosos conservadores, comerciantes do bazar, estudantes de esquerda e intelectuais liberais. Todos tinham um inimigo em comum: o Xá.
1979: O Ano em que o Mundo Mudou
O final da década de 1970 viu o descontentamento explodir nas ruas. Tudo começou com pequenas manifestações, que foram violentamente reprimidas pelas forças de segurança do Xá. Mas a violência, em vez de esmagar a oposição, apenas a alimentava. Cada funeral de um manifestante morto se transformava em um novo e maior protesto.
O país parou. Greves no setor de petróleo, o coração da economia iraniana, paralisaram o governo. Os bazares fecharam em sinal de apoio. Milhões de pessoas, de todas as classes sociais, saíram às ruas exigindo o fim da monarquia. A situação se tornou insustentável. O exército, pilar do regime, começou a vacilar, com soldados se recusando a atirar contra seus próprios compatriotas.
Em janeiro de 1979, enfraquecido pela doença e abandonado por seus aliados internacionais que viam seu regime como perdido, o Xá Mohammad Reza Pahlavi fugiu do Irã, para nunca mais voltar. A cena de sua partida marcou o fim de 2.500 anos de monarquia na Pérsia.
Duas semanas depois, em 1º de fevereiro de 1979, o Aiatolá Khomeini retornou de seu exílio em um voo triunfal. Multidões gigantescas o receberam em Teerã, aclamando-o como o salvador da nação. A revolução havia vencido. Mas o que viria a seguir? Muitos sonhavam com uma república democrática, onde diferentes vozes pudessem coexistir. A realidade seria muito diferente.
Como a Pérsia Se Tornou o Irã: A Consolidação da Ditadura Teocrática do Aiatolá

A alegria da vitória logo deu lugar a uma intensa e muitas vezes brutal luta pelo poder. O governo provisório, composto por figuras mais moderadas e liberais, rapidamente se viu em conflito com os comitês revolucionários e os clérigos liderados por Khomeini, que detinham o verdadeiro poder nas ruas.
Khomeini e seus seguidores não tinham a intenção de construir uma democracia liberal nos moldes ocidentais. Eles tinham uma visão muito clara para o futuro do Irã: uma República Islâmica. Em abril de 1979, um referendo foi realizado, e a população votou massivamente a favor da abolição da monarquia e da criação de uma República Islâmica. O nome do país mudou oficialmente de Pérsia, no contexto internacional, para Irã, como já era chamado internamente, mas a transformação mais profunda estava na sua estrutura de poder.
A Arquitetura do Poder Teocrático do Aiatolá
A nova constituição iraniana, redigida sob a supervisão dos clérigos, estabeleceu um sistema de governo único no mundo. No centro de tudo estava o conceito de Velayat-e Faqih, ou a “Tutela do Jurista Islâmico“. Essa doutrina, desenvolvida por Khomeini, defendia que, na ausência do profeta e dos imãs sagrados do xiismo, a mais alta autoridade política e religiosa deveria pertencer ao clérigo mais justo e sábio. Esse clérigo seria o Líder Supremo.
Essa posição, ocupada por Khomeini até sua morte em 1989 e depois por seu sucessor, o Aiatolá Ali Khamenei, detém o poder final sobre todas as questões de Estado. O Líder Supremo é o comandante-em-chefe das forças armadas, controla os serviços de inteligência, o poder judiciário e tem a palavra final sobre as principais políticas internas e externas.
Abaixo do Líder Supremo, existem instituições eleitas, como o presidente e o parlamento. No entanto, seu poder é limitado. Todos os candidatos a esses cargos precisam ser aprovados por um órgão chamado Conselho dos Guardiães, um comitê de doze membros, metade clérigos nomeados pelo Líder Supremo e metade juristas, que garante que todas as leis e candidatos estejam em conformidade com o Islã e a constituição. Na prática, isso significa que apenas aqueles leais ao sistema teocrático podem participar da política formal.
Para defender a revolução de seus inimigos internos e externos, foi criado o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Mais do que uma simples força militar, a Guarda Revolucionária se tornou uma instituição imensamente poderosa, com seus próprios exércitos, marinha, força aérea e um vasto império econômico. Ela responde diretamente ao Líder Supremo e é o principal instrumento de projeção do poder do regime, tanto dentro quanto fora do Irã.
Apagando a Oposição e Rompendo com o Ocidente
Nos primeiros anos após a revolução, qualquer oposição ao projeto teocrático foi sistematicamente eliminada. Liberais, esquerdistas, nacionalistas e outros grupos que haviam lutado ao lado dos clérigos contra o Xá foram expurgados, presos ou executados. As universidades foram fechadas para uma revolução cultural que visava remover as influências ocidentais do currículo.
O ponto de virada na relação com o mundo exterior foi a crise dos reféns. Em novembro de 1979, estudantes radicais invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, fazendo mais de 50 americanos reféns por 444 dias. O ato, apoiado por Khomeini, cimentou a imagem do Irã como um regime anti-ocidental e isolou o país internacionalmente, um isolamento que, de muitas formas, persiste até hoje.
A longa e sangrenta guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, que invadiu o Irã em 1980, também foi fundamental para consolidar o poder do regime. A guerra, que durou oito anos e custou centenas de milhares de vidas, uniu o país contra um inimigo externo e permitiu que o governo reprimisse qualquer dissidência interna em nome do esforço de guerra e da unidade nacional.
A Vida Sob o Olhar da Ditadura Teocrática do Aiatolá
Com o novo regime firmemente no poder, a sociedade iraniana passou por uma transformação radical, projetada para alinhá-la a uma interpretação estrita da lei islâmica, a Sharia.
As Mudanças no Cotidiano
As mudanças mais visíveis ocorreram na vida das mulheres. O uso do hijab, o véu islâmico, tornou-se obrigatório em público. Leis que antes davam às mulheres mais direitos no casamento e na família foram revertidas. A segregação de gênero foi implementada em muitos espaços públicos, como escolas e ônibus.
A cultura e a arte também foram colocadas sob estrito controle. A música ocidental foi banida. O cinema e a literatura passaram a ser rigorosamente censurados para garantir que não violassem os valores islâmicos. A vida social, que antes florescia em cafés e clubes, tornou-se muito mais restrita e privada.
O sistema legal foi completamente reformulado com base na Sharia. Punições como açoitamento e apedrejamento foram introduzidas no código penal, embora sua aplicação seja complexa e contestada. A justiça passou a ser administrada por clérigos, e o poder judiciário foi colocado sob o controle direto do Líder Supremo.
O Irã Hoje: Entre a Resistência e a Tradição
Décadas após a revolução, o Irã continua sendo uma nação de profundas complexidades e contradições. A ditadura teocrática islâmica permanece no poder, mas não sem desafios. A população iraniana, especialmente os jovens, que não viveram a era do Xá nem a revolução, anseia por mais liberdade pessoal e oportunidades econômicas.
Ao longo dos anos, vimos ondas de protestos abalarem o país. Desde o Movimento Verde em 2009, que contestou os resultados de uma eleição presidencial, até as recentes e corajosas manifestações lideradas por mulheres sob o lema “Mulher, Vida, Liberdade”, o povo iraniano tem mostrado repetidamente sua resiliência e seu desejo por mudança.
A economia, sufocada por sanções internacionais relacionadas ao programa nuclear do país e por má gestão interna, luta para atender às necessidades de uma população jovem e educada. A tensão entre as facções linha-dura e os reformistas dentro do próprio sistema político é uma constante.
Conclusão: Irã, Uma Jornada Inacabada
A história de como a Pérsia se tornou o Irã é um lembrete poderoso de como a busca de um povo por dignidade, justiça e identidade pode levar a resultados inesperados e transformadores. Foi uma revolta nascida de uma mistura de queixas legítimas: a desigualdade social, a repressão política e a perda da identidade cultural.
O resultado foi a criação de um sistema de governo que tentou fundir fé e política de uma maneira sem precedentes no mundo moderno. Para alguns, representou a realização de um ideal islâmico. Para muitos outros, especialmente as gerações mais novas, tornou-se um sistema opressor que nega liberdades fundamentais.
A jornada do Irã está longe de terminar. O eco da antiga Pérsia ainda ressoa na cultura rica, na poesia e na força de seu povo. A história futura desta nação fascinante e complexa ainda está sendo escrita, não apenas pelos que estão no poder, mas também por aqueles que, nas ruas e em suas casas, continuam sonhando com um futuro livre e democrático. Entender essa trajetória é essencial para compreender não apenas o Irã, mas as forças poderosas que continuam a moldar o nosso mundo.





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